Esqueça o que você sabe sobre como estudar (Benedict Carey)
Por Benedict Carey, do New York Times
Psicólogos descobriram que alguns dos mais sagrados conselhos sobre como estudar estão errados. “Reserve um espaço tranquilo; respeite o cronograma de tarefas; estabeleça metas e limites” -as conclusões contradizem grande parte dessa sabedoria comum. Na verdade, algumas técnicas simples podem melhorar de forma confiável o quanto um aluno aprende ao estudar.
Por exemplo, em vez de ficar em um só local, o simples fato de alternar o ambiente do estudo já melhora a atenção. O mesmo vale quanto a estudar habilidades ou conceitos distintos, mas correlatos, de uma só vez, em lugar de focar intensamente em uma coisa só. “Conhecemos esses princípios já há algum tempo, e é intrigante que as escolas não os tenham adotado, ou que as pessoas não os aprendam por tentativa e erro”, disse Robert Bjork, psicólogo da Universidade da Califórnia, Los Angeles.
Veja a noção de que as crianças têm estilos de aprendizado específicos -que algumas são mais “visuais”, enquanto outras aprendem “de ouvido”; ou que algumas usam mais o lado esquerdo do cérebro, e outras usam mais o direito. Numa recente revisão publicada na revista “Psychological Science in the Public Interest”, uma equipe de psicólogos não encontrou praticamente nada que corroborasse tais ideias. Eles consideraram “chocante e perturbadora” a popularidade de uma abordagem tão pouco comprovada.
Muitos cursos voltados para como estudar melhor insistem que o aluno encontre um local específico para trabalhar. A pesquisa concluiu justamente o contrário. O cérebro estabelece associações sutis entre o que é estudado e as sensações notadas naquele momento no ambiente. Ele dá ao Tratado de Versalhes as mesmas cores da luz fluorescente do alojamento estudantil, digamos; ou atribui ao Plano Marshall o tom de verde do salgueiro no quintal.
“O que achamos que acontece é que, quando o contexto externo varia, a informação é enriquecida, retardando o esquecimento”, disse Bjork. Da mesma forma, variar o tipo de material estudado em uma só sessão parece deixar uma impressão mais profunda no cérebro, em vez de se concentrar numa só coisa por vez.
A pesquisa também contraria a abordagem da “imersão intensiva”. Entupir apressadamente um cérebro é como tentar encher de repente uma mala vagabunda: ela segura o conteúdo por algum tempo, até que tudo se esparrama. Quando a “mala neurológica” é enchida de modo gradual e cuidadoso, ela retém o conteúdo por bem mais tempo. Uma hora de estudos por noite, uma hora no fim de semana, outra sessão daqui a uma semana: tal espaçamento melhora a rememoração posterior.
Ninguém sabe por quê. Talvez o cérebro, ao revisitar o material, tenha de reaprender parte do que havia absorvido, antes de incorporar mais coisas e pode ser que esse processo sirva de reforço. “A ideia é que o esquecer é amigo do aprender”, afirmou Nate Kornell, psicólogo do Williams College, de Massachusetts, e autor de um estudo sobre o aprendizado. “Quando você esquece algo, isso permite que você reaprenda, e o faça efetivamente da próxima vez que vir isso.”
Publicado também no jornal Folha de São Paulo, em 27/set/2011 [suplemento The New York Times]
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