Esse punhado de ossos
a Moacyr Felix
Esse punhado de ossos que, na areia
Alveja e estala à luz do sol a pino
Moveu-se outrora, esguio e bailarino,
Como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
Lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
Bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
O que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
E príncipes e bispos e donzelas,
Mas de todos a morte apenas fez
A tábua rasa do asco e das mazelas.
E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.
[Ivan Junqueira. Coletado do livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século" ou algo equivalente. A pontuação e as maiúsculas no início de cada estrofe pode não corresponder ao que foi publicado, pois esse poema foi transcrito várias vezes em diversos suportes antes de vir parar aqui]