"Vem, Noite antiqüíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito. (...) "
[Álvaro de Campos (F. Pessoa), Fragmento de Ode I, in: "Fernando Pessoa: poesia", por Adolfo Casais Monteiro, 10ª ed., Rio de Janeiro, Agir, 1989, p. 76 (col. Nossos Clássicos)]

"(...) noites como esta, em que já não me será dado viver."
[Jostein Gaarder, "A garota das laranjas", Trad. Luiz Antônio de Araújo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 127 (citação possivelmente de outrem, constante também em alguma página anterior, provavelmente)]
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Eben Alexander: O paraíso existe (revista Galileu)


Neurocirurgião escreve livro sobre sua experiência de quase morte e garante: o Paraíso existe
Caso vem chamando atenção da imprensa mundial: professor de Harvard ficou em coma e diz que, mesmo com o cérebro desligado e quase sem chances de sobrevivência, passou esse tempo em um reino espiritual

por Redação da revista Galileu

Um neurocirurgião professor de Harvard é o tipo de pessoa que se leva a sério. Não precisa concordar e nem acreditar, mas, se você tem juízo, vai ouvir o que ele tem pra falar. Pois é. O Dr. Eben Alexander tem muito que falar e quer que todo mundo ouça. Ele quer que a ciência entenda que o Paraíso existe. Mas ele é um acadêmico de Harvard, ele não brinca em serviço, ele merece crédito. Ele não acha que o Paraíso existe porque quer atenção, ele sabe que o Paraíso existe porque viveu uma semana lá.

Tudo começou quando Eben acordou com dor de cabeça em uma manhã de 2008. Não suportando a dor, foi levado ao hospital. Chegando lá, foi diagnosticado com um surto de meningite bacteriana –algo muito raro e que costuma atingir apenas recém-nascidos. A bactéria havia entrado em seu fluido cérebro-espinhal. A dor que ele sentia era da bactéria comendo seu cérebro e do seu córtex sendo desligado.

Eben chegou ao hospital com poucas chances de ter alguma sobrevivência que fosse além do estado vegetativo. Com o passar do tempo, essa estatística caiu pra praticamente zero. Uma semana depois, quando os médicos já debatiam se continuavam ou interrompiam o tratamento, ele abriu os olhos. Totalmente consciente e com uma certeza: passara os últimos dias no Paraíso.

A descrição do neurocirurgião é tão rica, tão cheia de detalhes que realmente leva a crer que ele não está inventando nada disso. Tanto que ele foi capa da revista americana Newsweek e está lançando um livro, que chega às lojas americanas dia 23 de outubro. Um acadêmico sério, um professor com respeitada carreira em Harvard, um médico especialista em cérebro...qualquer uma dessas pessoas falando de coisas como experiência pós-morte e reino espiritual chamaria atenção. Um ser humano que reúne as 3 características se importar em escrever um livro inteiro sobre o tema é suficiente para fazer o mundo virar a cabeça lentamente e se perguntar “Será que...?”

Se você já leu algum relato de viagem de ácido ou cogumelos, vai achar o
Paraíso um lugar familiar. Eben diz que estava em cima de nuvens rosadas que contrastavam com um céu azul escuro. Acima dele, seres transparentes (nem anjos, nem pássaros, uma forma superior, segundo ele) cruzavam o céu. Ele sentia como se estivesse naquele lugar há muito tempo e não tinha nenhuma memória de sua vida aqui na Terra. A sinestesia imperava: sons são sentidos pela pele “como uma chuva que você sente mas não te molha”. O médico ficou o tempo todo acompanhado de uma mulher de olhos azuis que não falava nada, e nem precisava: “Se ela te olhasse daquele jeito por 5 segundos, sua vida inteira até aquele momento já teria valido a pena.” As cores de tudo à sua volta tinham um aspecto “avassalador e super vívido” – ele ficou um tempo com a mulher em cima de uma asa de borboleta, enquanto outras incontáveis borboletas voavam em volta deles.

O olhar arrebatador da mulher não era de amizade, nem de sedução ou amor: era algo muito além, muito acima e inédito para olhos mundanos – expressão bastante recorrente em seu relato. Sem falar nada, ela disse pra ele:

- “Você é amado e querido para sempre”


- “Você não tem nada para temer”


- “Não tem nada que você pode fazer de errado”


E depois ainda emendou “Iremos mostrar muita coisa pra você aqui. Mas, eventualmente você vai voltar”. Tudo isso apenas olhando para Eben, que se perguntava “Voltar praonde?”. As respostas para suas perguntas existencialistas vinham “como uma explosão de cor, luz, amor e beleza que explodia em mim como uma onda quebrando”.

No final do seu relato, Eben deixa claro que sua estada no paraíso lhe pareceu mais real do que qualquer outra coisa que tenha acontecido com ele durante sua vida – casamento e nascimento de filhos incluso. Evidente que o relato de Eben não está acima de qualquer suspeita, mesmo que ele tenha passado por tudo isso, não há como garantir que esse lugar é real: todos nó sabemos quanto um sonho pode parecer real, mais até que a própria realidade, em alguns momentos. A diferença é que estamos falando de alguém que sempre teve todos os motivos do mundo para ser cético. É a ciência, mais uma vez, se confrontando com as imprecisões da mente e da alma humana.
[http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI321174-17770,00-NEUROCIRURGIAO+ESCREVE+LIVRO+SOBRE+SUA+EXPERIENCIA+DE+QUASE+MORTE+E+GARANTE.html]

 
veja também o texto “O que acontece na ante-sala da morte” (Revista Galileu de Abril/2002)
[http://revistagalileu.globo.com/EditoraGlobo/componentes/article/edg_article_print/1,3916,483439-1940-1,00.html]

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Últimas palavras – Christopher Hitchens (trecho)


Últimas palavras  (trecho) – Christopher Hitchens [do blog Paulopes]

Como tantas das experiências da vida, a novidade do diagnóstico de um câncer maligno tende a se dissipar. As coisas começam a ficar tediosas, até mesmo banais. É possível se acostumar ao espectro da morte como um velho entediado e letal, espreitando no corredor no final da noite, esperando uma oportunidade de me abordar. E não me oponho a ele segurar meu casaco daquele modo formal, como que me lembrando que é hora de seguir caminho. Não, é o risinho abafado que me deprime.

Com demasiada regularidade, a doença me serve um atrativo especial do dia, ou um sabor do mês. Podem ser feridas e úlceras aleatórias, na língua ou na boca. Por que não um toque de neuropatia periférica envolvendo pés dormentes e frios? A existência diária se torna uma coisa de bebê, medida não nas colheres de café do Prufrock de T.S. Elliot, mas em pequenas doses de alimento, acompanhadas de barulhos encorajadores dos espectadores ou de discussões solenes e em tom maternal com estranhos sobre as operações do sistema digestivo. Nos dias menos bons, me sinto como aquele leitão de perna de pau da família sadicamente sentimental, que só consegue comê-lo um pedaço de cada vez. Com a diferença de que o câncer não é tão... atencioso.

O mais desalentador e alarmante, até agora, foi o momento em que minha voz de repente se transformou num agudo guincho infantil (ou talvez suíno). Ela, então, começou a variar bastante, de um sussurro rouco e rascante até um balido frágil e melancólico. Em certos momentos ameaçava, e agora ameaça todos os dias, desaparecer completamente. Eu tinha acabado de voltar de duas palestras na Califórnia, onde, com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguira “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu. Fiquei de pé, paralisado, como um gato bobo que, de repente, perdeu seu miado. Eu costumava ser capaz de deter um táxi nova-iorquino a trinta passos de distância. Conseguia também, sem microfone, alcançar a última fila e a galeria de uma lotada sala de conferências. Pode não ser algo de que se vangloriar, mas as pessoas me diziam que, mesmo na sala ao lado, com o rádio ou o televisor ligados, elas sempre conseguiam identificar meu tom e saber que eu estava “no ar”.


Como a própria saúde, tal perda não pode ser imaginada até que acontece. Assim como todo mundo, brinquei de versões do jogo juvenil “o que você preferiria?”, no qual normalmente se debatia se o mais opressivo seria a cegueira ou a surdez. Não me lembro de ter especulado muito sobre de repente ficar mudo. A privação da capacidade de falar é mais como um ataque de impotência, ou a amputação de parte da personalidade. Em grande medida, em público e em particular, eu “era” minha voz. Todos os rituais e a etiqueta da conversa – desde pigarrear nos preparativos para contar uma piada longa e exigente até (nos dias de juventude) tentar tornar minhas propostas mais persuasivas, enquanto eu estrategicamente baixava o tom em uma oitava de constrangimento – eram inatos e essenciais para mim. Nunca fui capaz de cantar, mas podia recitar poesia e citar prosa, e algumas vezes era até mesmo convidado a fazê-lo. Timing é tudo na fala: há o momento preciso para arrematar uma história, para enfatizar um verso, para produzir riso ou para ridicularizar um oponente. Eu vivia para momentos assim. Agora, quando quero entrar numa conversa, tenho de chamar a atenção de outra forma, e suportar o fato terrível de que as pessoas então me escutarão “com compaixão”. Pelo menos, elas não precisam emprestar sua atenção por muito tempo: não consigo mantê-la e, de qualquer forma, não aguentaria fazê-lo.

Quando você fica doente, as pessoas lhe dão CDs. Pela minha experiência, com frequência são de Leonard Cohen. Recentemente aprendi uma canção, intitulada “If it be your will”. É um pouquinho piegas, mas belamente interpretada.
Começa assim: “If it be your will/that I speak no more/and my voice be still/as it was before...” (Se for seu desejo/que eu não fale mais/e minha voz ainda seja/como foi antes...). Acho melhor não ouvir isso tarde da noite. Leonard Cohen é inimaginável sem, e indissociável de, sua voz. (Duvido que quisesse, ou suportasse, ouvir essa canção com qualquer outro intérprete.) Digo a mim mesmo que, de certa forma, conseguiria me arrastar, me comunicando apenas por escrito. Mas só por causa de minha idade. Caso tivesse sido privado de minha voz antes, duvido que teria conseguido progredir no papel. Tenho uma enorme dívida para com Simon Hoggart, do Guardian, que, há trinta e cinco anos, me advertiu que um artigo meu era bem concebido mas tedioso – e me aconselhou rispidamente a escrever “mais do modo como você fala”. Na época, fiquei quase sem palavras com a acusação de ser tedioso. Jamais agradeci adequadamente.

Mais tarde, ao dar minhas aulas de redação, começava dizendo que qualquer um capaz de falar também pode escrever. Depois de animar a turma com essa escada fácil, então a substituía por uma enorme cobra odiosa: “Quantas pessoas nesta turma vocês diriam que sabem falar? Quero dizer, falar de verdade?”. Tinha um efeito deprimente. Eu dizia a eles para ler seus textos em voz alta, preferencialmente para um amigo de confiança. As regras são quase as mesmas: fuja das frases feitas (como da peste, costumava dizer William Safire) e das repetições. Não diga que “quando garoto, sua avó costumava ler para você”, a não ser que, naquele estágio da vida, ela realmente tivesse sido um garoto, circunstância que, de qualquer forma, provavelmente exigiria de você uma introdução melhor. Se algo merece ser escutado, muito provavelmente merece ser lido. Então, descubra sua própria voz.

O cumprimento mais prazeroso que um leitor pode me fazer é dizer que sente que me dirijo a ele. Pense em seus autores preferidos e veja se essa não é uma das coisas que o cativam, sem que você tenha percebido. Uma boa conversa é o único equivalente humano: é quando você percebe que observações decentes são feitas e compreendidas, que há ironia envolvida, e elaboração, que um comentário tedioso ou óbvio seria quase fisicamente doloroso. Foi como a filosofia evoluiu nos simpósios, antes de ser escrita. A poesia começou com a voz como único instrumento de execução, e o ouvido, de registro. Não conheço nenhum escritor realmente bom que fosse surdo. Henry James e Joseph Conrad ditaram seus romances tardios, e Saul Bellow ditou muito de Humboldt’s Gift. Sem nossa correspondente compreensão do idioleto – a marca no modo como alguém fala e, portanto, escreve –, seríamos privados de um mundo de simpatia humana e de seus prazeres em tom menor de imitação e paródias.

De modo mais solene: “Tudo o que tenho é uma voz”, escreveu W.H. Auden em “September 1, 1939”, sua tentativa agoniada de compreender o – e se opor ao – triunfo do mal radical. “Quem pode alcançar o surdo?”, perguntou ele, desesperadamente. “Quem pode falar pelo mudo?” Mais ou menos na mesma época, a judia alemã Nelly Sachs, futura ganhadora do Nobel, descobriu que o surgimento de Hitler a deixara literalmente sem fala: roubara dela sua voz pela total negação de todos os valores. Nosso próprio idioma cotidiano preserva a ideia, embora amenizada: quando uma figura pública morre, os obituários com frequência dizem que ela foi “uma voz” para os não ouvidos.

Da garganta humana também podem emergir terríveis venenos: pranto, monotonia, queixumes, gritos, incitação (“o lixo militante mais vazio”, como Auden definiu no mesmo poema) e mesmo risinhos abafados. É a chance de erguer pequenas vozes serenas contra essa torrente de falatório e ruído, as vozes de perspicácia e contenção. Todas as melhores lembranças de sabedoria e amizade, da Apologia de Sócrates, por Platão, ao Life of Johnson, de James Boswell, vibram com os momentos não ditos, não programados, de interrelação, razão e especulação. É em embates como esse, competindo e se comparando a outros, que se pode esperar descobrir o fugidio e mágico mot juste, a palavra certa. Para mim, lembrar amizade é lembrar conversas que parecia um pecado interromper, aquelas que transformavam o sacrifício do dia seguinte em algo banal. Foi o modo pelo qual Calímaco escolheu lembrar seu amado Heráclito: “Eles me contaram, Heráclito; eles me contaram que você estava morto. Eles me levaram notícias amargas de ouvir, e lágrimas amargas a derramar. Chorei quando lembrei com que frequência você e eu havíamos cansado o sol conversando”. Ele sustenta a imortalidade do amigo na doçura de seus tons: “Ainda estão tuas vozes agradáveis, teus rouxinóis despertos; pois a Morte leva tudo, mas elas, não pode levar.” Talvez meio exaltado demais no verso final...

Na literatura médica, a corda vocal é uma mera “prega”, um pedaço de cartilagem que se esforça para se esticar e tocar sua gêmea, criando efeitos sonoros. Mas sinto que tem de haver uma relação profunda com a palavra “corda”: a vibração ressoante que pode despertar lembranças, produzir música, evocar amor, gerar lágrimas, conduzir multidões à piedade e turbas à paixão. Podemos não ser, como costumávamos nos vangloriar, os únicos animais capazes de falar. Mas somos os únicos que podem usar a comunicação verbal por prazer e diversão, combinando isso com razão e humor para produzir sínteses mais elevadas. Perder essa habilidade é ser privado de uma gama de capacidades: certamente é morrer mais que um pouco.

Meu maior consolo neste ano vivendo moribundo tem sido a presença de amigos. Já não consigo comer ou beber por prazer, então, quando eles se oferecem para vir, é só pela abençoada oportunidade de conversar. Alguns desses camaradas podem facilmente encher um auditório de pagantes ávidos para ouvi-los. São falantes com quem é um privilégio simplesmente estar. Agora eu, pelo menos, posso escutar de graça. Eles podem vir e me ver? Sim, mas só eles falam, eu escuto. Então, agora, todo dia vou para uma sala de espera e vejo as notícias terríveis sobre o Japão na TV a cabo (frequentemente em closed caption, apenas para me torturar), e espero impaciente que uma grande dose de prótons seja disparada para dentro do meu corpo a dois terços da velocidade da luz. O que espero? Se não uma cura, uma remissão. E o que quero de volta? Na mais bela composição de duas das palavras mais simples do idioma, freedom of speech. [Liberdade de expressão (literalmente, liberdade de fala)].

Últimas Palavras, de Christopher Hitchens
Globolivros, 96 págs., R$ 24,90
ISBN 978-85-250-5274-2


[do blog do Paulo Lopes http://www.paulopes.com.br/2012/09/trecho-do-ultimas-palavras-de-hitchens.html#ixzz27gxVTyzW]

quinta-feira, 29 de março de 2012

POEMINHA: ÚLTIMA VONTADE (Millôr Fernandes)

POEMINHA: ÚLTIMA VONTADE (Millôr Fernandes)



Enterrem meu corpo em qualquer lugar.

Que não seja, porém, um cemitério.

De preferência, mata;

Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.

Na tumba, em letras fundas,

Que o tempo não destrua,

Meu nome gravado claramente.

De modo que, um dia,

Um casal desgarrado

Em busca de sossego

Ou de saciedade solitária,

Me descubra entre folhas,

Detritos vegetais,

Cheiros de bichos mortos

(Como eu)

E, como uma longa árvore desgalhada

Levantou um pouco a laje do meu túmulo

Com a raiz poderosa,

Haja a vaga impressão

De que não estou na morada.

Não sairei, prometo.

Estarei fenecendo normalmente

Em meu canteiro final.

E o casal repetirá meu nome,

Sem saber quem eu fui,

E se irá embora,

Preso à angústia infinita

Do ser e do não ser.

Ficarei entre ratos, lagartos,

Sol e chuva ocasionais,

Estes sim, imortais.

Até que um dia, de mim caia a semente

De onde há de brotar a flor

Que eu peço que se chame

Papáverum Millôr



(extraído do livro “Papáverum Millôr”, de Millôr Fernandes, editora Prelo, 1976 | Reproduzido no Jornal “Folha de São Paulo”, edição de 29/março/2012, caderno Cotidiano, p. C11, por ocasião da morte de Millôr Fernandes)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Arrependimentos dos que vão morrer (Bronnie Ware)

Livro lista 5 principais arrependimentos de pessoas prestes a morrer

Enfermeira australiana relatou experiências com pacientes terminais e diz que aprendeu que não se deve acumular frustrações.

02/02/2012 09h57 - Atualizado em 02/02/2012 10h18 [Portal G1]

Uma enfermeira australiana lançou um livro com uma lista de cinco principais arrependimentos de pessoas que estão prestes a morrer.
Bronnie Ware, que é especialista em cuidados paliativos e doentes terminais, afirma que reuniu em seu livro 'confissões honestas e francas de pessoas em seus leitos de morte', confissões que, segundo ela, mudaram sua vida.
'Encontrei uma lista grande de arrependimentos, mas, no livro, me concentrei nos cinco mais comuns', disse a autora à BBC.
'O principal arrependimento de muitas pessoas é o de não ter tido coragem de fazer o que realmente queriam e não o que outros esperavam que fizessem', acrescentou.
'Outro arrependimento comum é de não terem trabalhado um pouco menos, o que fez com que perdessem muitas coisas em suas vidas', disse Ware.
O livro de Ware, intitulado The Top Five Regrets of the Dying - A Life Transformed by the Dearly Departing ('Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte', em tradução livre) relata as experiências da autora durante anos de trabalho em cuidados de doentes terminais.
Os pacientes de Ware, geralmente, eram pessoas que já não tinham chances de recuperação e podiam morrer a qualquer momento.
A enfermeira afirma que isto permitiu que ela compartilhasse com estes pacientes 'momentos incrivelmente especiais porque passei com eles as últimas três a doze semanas de suas vidas'.
Texto viral
Ware conta que a ideia para o livro surgiu depois que um artigo que publicou em seu blog transformou-se em um texto viral, espalhando-se pela web.
'As pessoas amadurecem muito quando precisam enfrentar a própria mortalidade', afirmou.
'Cada pessoa experimenta uma série de emoções, como é esperado, que inclui negação, medo, arrependimento, mais negação e, em algum momento, aceitação.'
A enfermeira garante que cada um dos pacientes que tratou 'encontrou sua paz antes de partir'.
Ware disse à BBC que, durante os anos em que trabalhou com estes pacientes, percebeu também que muitos se arrependiam de não terem tido 'coragem para expressar seus sentimentos'.
'E isso se aplica tanto aos sentimentos positivos quanto aos negativos.'
'Muitos diziam: 'queria ter tido coragem de falar que não gostava de uma coisa', ou então que queriam ter tido coragem de falar às pessoas o que realmente sentiam por elas', afirmou.
Amigos
Bronnie Ware também destacou outro arrependimento que notou entre seus pacientes: o de ter perdido o contato com os amigos.
A enfermeira afirmou que os amigos são importantes no fim da vida, uma vez que os parentes que acompanham um doente terminal também enfrentam muita dor.
Uma pessoa no leito de morte, segundo Ware, sente falta dos amigos, mas, muitas vezes, a perda de contato ao longo dos anos impede um reencontro.
A enfermeira também chama a atenção para o fato de que as pessoas se arrependem do que não fizeram. Na maioria dos casos observados por ela, as pessoas não pareciam se arrepender de algo que tinham feito.
A autora afirma que espera que seu livro 'ajude as pessoas a agir hoje e a não deixar as coisas para amanhã e se arrepender depois'.
[http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/02/livro-lista-5-principais-arrependimentos-de-pessoas-prestes-a-morrer.html]


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Veja os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão para morrer
09/02/2012 - 12h19 (site da Folha de São Paulo)
Uma enfermeira que aconselhou muitas pessoas em seus últimos dias de vida escreveu um livro com os cinco arrependimentos mais comuns das pessoas antes de morrer.
Bronnie Ware é um enfermeira que passou muitos anos trabalhando com cuidados paliativos, cuidando de pacientes em seus últimos três meses de vida. Ela conta que os pacientes ganharam uma clareza de pensamento incrível no fim de suas vidas e que podemos aprender muito desta sabedoria.
"Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente", disse Bronnie ao jornal britânico "The Guardian".
Confira a lista e os comentários da enfermeira:
1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse
"Esse foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que a vida delas está quase no fim e olham para trás, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não realizou nem metade dos seus sonhos e têm de morrer sabendo que isso aconteceu por causa de decisões que tomaram, ou não tomaram. A saúde traz uma liberdade que poucos conseguem perceber, até que eles não a têm mais."
2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto
"Eu ouvi isso de todo paciente masculino que eu trabalhei. Eles sentiam falta de ter vivido mais a juventude dos filhos e a companhia de seus parceiros. As mulheres também falaram desse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais antiga, muitas não tiveram uma carreira. Todos os homens com quem eu conversei se arrependeram de passar tanto tempo de suas vidas no ambiente de trabalho."
3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos
"Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. Como resultado, ele se acomodaram em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem eles realmente eram capazes de ser. Muitos desenvolveram doenças relacionadas à amargura e resentimento que eles carregavam."
4. Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos
"Frequentemente eles não percebiam as vantagens de ter velhos amigos até eles chegarem em suas últimas semanas de vida e não era sempre possível rastrear essas pessoas. Muitos ficaram tão envolvidos em suas próprias vidas que eles deixaram amizades de ouro se perderem ao longo dos anos. Tiveram muito arrependimentos profundos sobre não ter dedicado tempo e esforço às amizades. Todo mundo sente falta dos amigos quando está morrendo."
5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz
"Esse é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos só percebem isso no fim da vida que a felicidade é uma escolha. As pessoas ficam presas em antigos hábitos e padrões. O famoso 'conforto' com as coisas que são familiares O medo da mudança fez com que ele fingissem para os outros e para si mesmos que eles estavam contentes quando, no fundo, eles ansiavam por rir de verdade e aproveitar as coisas bobas em suas vidas de novo."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Noivos(as) cadáveres na China

Casamento entre pessoas mortas é tradição na China

Mundo Estranho - Luiza Sahd   |    7 de novembro de 2011

Existe uma crença muito antiga na China: homens com mais de 12 anos que morrem solteiros não podem ser enterrados sem uma esposa. Caso contrário, infortúnios acontecerão para sua família e gerações futuras.

Por conta da tradição, muitas famílias camponesas realizam casamentos entre filhos mortos – a maioria nem se conheceu em vida – para que eles descansem em paz.

(...)

(texto completo):

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para todo começo há um fim!

Para todo começo há um fim!

A morte é um tema bastante paradoxal. Apesar de estar presente, inevitavelmente, na vida de todos os seres humanos, é um assunto que tende a ser evitado. Isso acontece porque há uma dificuldade natural da maioria dos indivíduos em encarar e aceitar a sua própria finitude.

Na verdade, pensar em morte deveria ser uma forma de refletir sobre a vida. Afinal, a morte significa o término de um ciclo natural ao qual todos estamos sujeitos. Dentre os estudiosos que se debruçaram sobre o assunto, merece destaque a médica psiquiatra suíça Elizabeth Kübler-Ross. Ela analisou os cinco estágios, que não são necessariamente sequenciais, da reação dos pacientes terminais diante do processo de morte. São eles: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e, por fim, aceitação.

Se a morte é, necessariamente, um tema espinhoso, a eutanásia desperta controvérsias aparentemente insolúveis. Decidir sobre os rumos da vida de um ente querido, sem poder consultá-lo, é uma responsabilidade talvez excessiva diante do sofrimento provocado e da desesperança pela vida. Não surpreendentemente, o assunto não escapa das polêmicas religiosas. Nesse sentido, alguns partem do princípio de que, como Deus concedeu a vida ao indivíduo, somente Ele poderia retirá-la. Dessa maneira, o assunto esbarra em questões que envolvem o embate entre ciência e liberdade individual. Outras polêmicas, aliás, giram em torno da medicina de modelo paliativo aplicada no século XXI, em que o tratamento da doença não está somente focado nas necessidades físicas, mas também nas demandas espirituais e psicológicas dos pacientes.
[Coquetel Conhecer nº 6: Enem + vestibular, Rio de Janeiro, Ediouro, dez/2010, p. 12]

Minha vida sem mim (filme)

THINGS TO DO BEFORE I DIE
1. Tell my daughter I love them several times a day.
2. Find Don a new wife who the girls like.
3. Record birthday messages for the girls fore every year until they're 18.
4. Go to Whalebay Beach together and have a big picnic.
5. Smoke and drink as much as I want.
6. Say what I'm thinking.
7. Make love with other men to see what it's like.
8. Make someone fall in love with me.
9. Go and see Dad in jail.
10. Get some false nails. (and do something with my hair)
Lista e Imagem = [http://iam-ccy.blogspot.com/2011/10/my-life-without-me.html]
(a imagem é do momento em que o médico lhe informa a respeito da doença)
*****
Título original: (Mi Vida Sin Mi) | Lançamento: 2003 (Espanha)
Direção: Isabel Coixet
Atores: Sarah Polley, Scott Speedman, Deborah Harry, Mark Ruffalo.
Duração: 106 min | Gênero: Drama

Sinopse
Tendo apenas 23 anos, Ann (Sarah Polley) é mãe de duas garotinhas, Penny (Jessica Amlee) e Patsy (Kenya Jo Kennedy), e é casada com Don (Scott Speedman), que constrói piscinas. Ela trabalha todas as noites na limpeza de uma universidade, onde nunca terá condições de estudar, e mora com sua família em um trailer, que fica no quintal da casa da sua mãe (Deborah Harry). Ann mantém uma distância obrigatória do pai, pois ele há dez anos está na prisão. Após passar mal, Ann descobre que tem câncer nos ovários. A doença alcançou o estômago e logo estará chegando no fígado, assim ela terá no máximo três meses de vida. Sem contar a ninguém seu problema e dizendo que está com anemia, Ann faz uma lista de tudo que sempre quis realizar, mas nunca teve tempo ou oportunidade. Ela começa uma trajetória em busca de seus sonhos, desejos e fantasias, mas imaginando como será a vida sem ela.
*****
Sinopse 2
Produzido por Pedro Almodóvar, este drama é daqueles que podem fazer chorar os mais sensíveis. Simples, lúdico e delicado, o filme conta a história de Ann (Sarah Polley, Madrugada dos Mortos), uma jovem de 23 anos que leva uma vidinha simples e bastante comum. Ao lado do marido Don (Scott Speedman, Anjos da Noite) e de duas adoráveis filhas pequenas, ela mora em um trailer no quintal da casa de sua mãe (vivida por Debbie Harry, vocalista do Blondie) e, à noite, trabalha como faxineira em uma universidade. Mas a falta de conforto ou dinheiro não é seu maior problema quando ela descobre que tem uma doença incurável e seus dias estão contados. Ann resolve manter segredo, mas faz uma lista de coisas que gostaria de fazer antes de morrer, como gravar mensagens de aniversário para suas filhas até elas completarem 18 anos e fazer alguém se apaixonar por ela.
FICHA TÉCNICA
Diretor: Isabel Coixet
Elenco: Sarah Polley, Scott Speedman, Deborah Harry, Mark Ruffalo, Leonor Watling, Amanda Plummer, Julian Richings, Maria de Medeiros, Alfred Molina.
Produção: Esther García, Gordon McLennan
Roteiro: Isabel Coixet, baseado em romance de Nancy Kincaid
Fotografia: Jean-Claude Larrieu | Trilha Sonora: Alfonso Vilallonga
Duração: 106 min. | Ano: 2003
País: Canadá/ Espanha | Gênero: Drama
Cor: Colorido | Distribuidora: Não definida
Estúdio: El Deseo S.A. | Classificação: 14 anos

[http://www.cineclick.com.br/filmes/ficha/nomefilme/minha-vida-sem-mim/id/11817]
*****
Sinopse 3
Ann é uma jovem mãe de duas garotinhas, com um marido que passa mais tempo procurando emprego do que trabalhando, uma mãe com um coração partido que a transformou numa mulher amargurada e um pai que está há dez anos na cadeia. Enquanto qualquer garota de sua idade está se divertindo, Ann trabalha todas as noites na limpeza de uma universidade onde nunca terá condições de estudar de dia. Depois de passar mal um dia, ela descobre que tem uma doença grave. Sem contar a ninguém, começa a fazer uma lista de tudo quanto sempre quis fazer mas nunca teve tempo ou oportunidade. E começa uma trajetória em busca de todos os seus sonhos, desejos e fantasias. Mas sempre imaginando como será a vida sem ela.
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Comentário/avaliação/crítica de Érico Borgo (13/maio/2004)
O que você faria se tivesse apenas mais dois meses de vida?
A premissa é batida e parecia já ter sido suficientemente explorada pelo cinema. Entretanto, Minha vida sem mim (My life without me, 2003) revisita o tema com grande sensibilidade e não se apóia no sentimentalismo barato ou nas lições de vida engrandecedoras que geralmente pontuam as produções do gênero.
A protagonista é Ann (Sarah Polley), uma jovem faxineira de uma universidade que leva uma vida difícil. Com duas filhas pequenas pra cuidar - a mais velha nasceu quando ela tinha apenas 17 anos - e um marido desempregado (Scott Speedman), ela é obrigada a viver em um minúsculo trailer estacionado no terreno atrás da casa de sua mãe (Debbie Harry, da banda Blondie), uma mulher amargurada e infeliz.
Depois de um desmaio em casa, Ann faz uma consulta com um médico e descobre que tem uma doença em estágio terminal. Restam-lhe apenas mais dois meses de vida, afirma o tímido médico, incapaz de olhar a moça nos olhos. É exatamente a partir daí que o filme desvia-se do usual: Ann decide esconder o fato de sua família e parte para realizar uma lista de pequenas que nunca fez e que gostaria de experimentar. Nada de grandioso ou memorável. Coisas tão absolutamente comuns e humanas que fica impossível não se relacionar com a personagem. Não há heroísmos. Não há rompantes de compreensão do sentido da vida ou sofrimentos exacerbados. Existe apenas uma jovem colocando sua própria vida, pela primeira vez, como prioridade.
O filme foi produzido pela El Deseo, produtora dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, e foi dirigido com enorme equilíbrio por Isabel Coixet, uma profissional oriunda do mercado publicitário. A seleção do elenco foi bastante cuidadosa e o resultado é totalmente convincente. Polley (Madrugada dos mortos) atua com sutileza e revela grande talento, Speedman (Underworld) interpreta um marido devotado, Amanda Plummer (Ken Park) faz um ótimo trabalho como uma colega de Ann que vive metida em regimes e Mark Ruffalo (Em carne viva) está em um de seus melhores momentos como um rapaz que a protagonista conhece numa lavanderia.
Mas não pense que só porque Minha vida sem mim não segue a cartilha dos dramalhões que não se trata de um filme essencialmente triste. Esse é o tipo de história capaz de comover qualquer um, por incitar meditações sobre a vida, seu fim, e faz pensar e planejar seu tempo restante. Seja ele dois meses, alguns anos ou décadas. Como se fosse possível calcular algo assim...
[http://omelete.uol.com.br/cinema/iminha-vida-sem-mimi/]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Paciente não se lembra do que ocorreu durante coma: famosa visão do túnel tem origem física

Paciente não se lembra do que ocorreu durante coma

Famosa visão do túnel tem origem física

Folha de São Paulo

O que sentem e do que se lembram pessoas que estiveram em coma? Existe muito mito a respeito -aquela história de "morri e voltei", "vi uma luz intensa", "vi minha mãe que tinha morrido" etc. Na verdade, nada disso aconteceu de fato- apesar de ter, de certo modo, acontecido.
"Os pacientes lembram de quando saem do coma, os primeiros momentos. Do período em coma não há lembranças, o paciente não está formando memória", diz Gisele Sampaio, gerente do Programa de Neurologia do Hospital Israelita Albert Einstein.
"Ninguém conta detalhes do período em que esteve em coma", diz Gisele, que supervisiona pacientes em UTI, muitos em estado de coma.
O que acontece é simples. O paciente, ao se recuperar lentamente, lembra-se, ou dos momentos pré-coma, ou dos últimos instantes dessa situação.
Uma descrição comum é enxergar um "túnel", uma "luz no fim do túnel". Também explicável pela ciência, não por algum aspecto místico. "É um fenômeno físico", diz a médica do Einstein.
A pessoa tem a visão lateral escurecida por conta da diminuição do fluxo sanguíneo. Logo, ao acordar, sente que está em um túnel.
A maneira tradicional de avaliar a intensidade do coma é pela chamada Escala de Coma de Glasgow, criada em 1974 por pesquisadores dessa cidade da Escócia.
A avaliação inclui testar a movimentação dos olhos e a capacidade verbal e motora.
O melhor nível é quando os olhos se abrem espontaneamente; a pior situação é quando eles não se abrem.
O paciente está bem se responde com coerência a perguntas como seu nome e idade. E a situação piora se ele emite sons ininteligíveis. E mais ainda se não consegue dizer nada.
A pontuação da Escala de Coma de Glasgow varia de 3 (coma profundo) a 15 (normalidade).
(RBN)

[publicado no jornal Folha de São Paulo, edição de 28/nov/2011 - p. C10]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Contabilizando cadáveres (Jennifer Schuessler)

Contabilizando cadáveres (Jennifer Schuessler)

Com seus gráficos estilosos e coloridos, "The Great Big Book of Horrible Things: The Definitive Chronicle of History's 100 Worst Atrocities" (O grande livro de coisas horríveis: a crônica definitiva das cem piores atrocidades da história) pode parecer mais com um candidato a clássico de leitura macabra de banheiro que com um esforço sério de pesquisa.
Mas o livro de Matthew White, de Richmond, Virgínia, louco por números e que se descreve como "atrocitologista", chega acompanhado de recomendações de estudiosos diversos, incluindo um prefácio do psicólogo Steven Pinker, da Universidade Harvard.
White, 54 anos, não tem diploma universitário nem formação em história ou estatística. Ele compila números de fontes secundárias diversas durante as horas livres de seu trabalho de bibliotecário.
Os números são estarrecedores e vão desde os conhecidos (1,67 milhão de vítimas do Khmer Vermelho, a atrocidade n° 39 na lista de White) até os quase esquecidos (13 milhões de mortos na rebelião de An Lushan, na China do século 8, 13° no ranking).
Quinze anos atrás, White desenhou um mapa ilustrando o colapso da União Soviética e o postou na internet. Mais mapas se seguiram e assim nasceu seu "Historical Atlas of the 20th Century".
A obsessão por contabilizar mortos começou mais tarde, acompanhada de um acúmulo constante de citações por acadêmicos reconhecidos: 377 livros publicados e 183 artigos.
A metodologia usada por White é simples. Ele reúne todas as estimativas que consegue encontrar. Rejeita os números maiores e menores e calcula a média, chegando a um número que ele reconhece que não passa de um palpite fundamentado. As mortes de fomes generalizadas e doenças decorrentes de conflitos armados são levadas em conta, mas não os desastres naturais e eventos econômicos ("é preciso haver uma base de violência", ele explicou).
Nem todos os acadêmicos confiam tão plenamente nos números de White. Benedict F. Kiernan, diretor do Programa de Estudos de Genocídio da Universidade Yale e especialista no Khmer Vermelho, disse em e-mail que fazer palpites sobre médias pode ser enganoso.
E White pode deslanchar discussões com as equivalências que traça, como, por exemplo, incluir as vítimas do Holocausto no total de 66 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, que, em seu livro, é o n° 1 entre as coisas mais horríveis de todos os tempos.
Para Pinker, as estimativas feitas por White "ficam do lado superior da escala". A questão de qual governante ou regime é o pior, segundo Charles Maier, historiador da Universidade Harvard, "ainda é uma pergunta muito natural", embora a maioria dos historiadores resista a focar os números.
"Ele (White) é um sujeito que não tem medo de sujar as mãos," observou Maier.

[Folha de São Paulo, 21/nov/2011 - caderno The New York Times, p. 6]