"Vem, Noite antiqüíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito. (...) "
[Álvaro de Campos (F. Pessoa), Fragmento de Ode I, in: "Fernando Pessoa: poesia", por Adolfo Casais Monteiro, 10ª ed., Rio de Janeiro, Agir, 1989, p. 76 (col. Nossos Clássicos)]

"(...) noites como esta, em que já não me será dado viver."
[Jostein Gaarder, "A garota das laranjas", Trad. Luiz Antônio de Araújo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 127 (citação possivelmente de outrem, constante também em alguma página anterior, provavelmente)]
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terça-feira, 13 de março de 2012

Sinais de paixão ou Você está apaixonado? (SUZANA HERCULANO-HOUZEL)

Você está apaixonado? (SUZANA HERCULANO-HOUZEL)



A lista abaixo pode ajudar você a fazer um diagnóstico desse seu estado de atenção concentrada

Ah, a paixão. Não se trata de um mero sentimento: de acordo com a antropóloga Helen Fisher, a paixão é um estado particular de hipermotivação e atenção concentrada na pessoa querida. E transcende culturas

-seus sinais são os mesmos em qualquer lugar, entre eles:

- pensamentos obsessivos e intrusivos a respeito de uma única pessoa, como se seu cérebro não conseguisse afastar sua ideia da mente;

- motivação aumentada quanto a tudo o que puder colocá-lo na presença dessa pessoa, seja atravessar a cidade à noite ou fazer mágicas para conseguir uma passagem de avião;

- necessidade diminuída de sono, pois qualquer oportunidade de ficar acordado na presença daquela pessoa (ou de sua voz, ou mesmo só de frases por chat) é imperdível;

- sensação de euforia em sua presença, acompanhada de otimismo incorrigível e um sorriso bobo no rosto;

- olhar fixado no outro, que rouba o foco da sua atenção e torna tudo o mais ao redor irrelevante;

- necessidade de tocar no outro, acompanhada de manifestações fisiológicas variadas (coração disparado, pele eletrizada) e desejo sexual irresistível;

- ideação constante sobre futuros possíveis com essa pessoa especial;

- angústia da separação, uma ansiedade terrível em resposta a meros pensamentos sobre distanciamento e, eventualmente, morte da pessoa em questão.

Quem já esteve profundamente apaixonado se reconhecerá nessa lista e quem está em dúvida pode tentar se "diagnosticar".

Pessoalmente, acho que a angústia da separação é uma maneira excelente de tirar a dúvida se o amor ou a paixão são verdadeiros. Faça uma lista mental de pessoas do seu conhecimento e, em segredo e de maneira totalmente hipotética, "mate-as" uma a uma. A morte do síndico ou de seu chefe não o deve incomodar muito; a morte de um tio talvez seja lamentável, mas suportável. Já a morte de seu filho ou daquela pessoa em especial... bingo!

A ressonância magnética hoje confirma as suspeitas de Fisher: o cérebro apaixonado tem seu sistema de recompensa e motivação, centrado no estriado ventral, hiperativado por tudo o que é direta ou vagamente relacionado ao objeto do desejo. Tudo a seu respeito é maravilhoso, desejável e certamente digno dos maiores esforços.

Conhecer suas origens no estriado ventral torna a paixão menos maravilhosa? Nem um pouco, eu diria. Se esse pedacinho de nada do meu cérebro pode me fazer sentir assim... uau!

SUZANA HERCULANO-HOUZEL é neurocientista, professora da UFRJ e autora do livro "Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

http://sergyovitro.blogspot.com/2012/03/suzana-herculano-houzel-voce-esta.html

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre detecção de espíritos (Suzana Herculano-Houzel)

(...)
Donde a pergunta inevitável, em tempos de Chico Xavier se tornando fenômeno de bilheteria nacional, durante a primeira aula sobre os sistemas sensoriais para minha turma de psicologia na UFRJ: e os espíritos? Como nós os detectamos?

Resposta em palavras escolhidas a dedo pela Neurocientista de Plantão: até hoje não foi detectada nenhuma forma de energia que possa corresponder a manifestações espíritas. Nenhum aparelho acusa qualquer tipo de variação de energia externa ao cérebro que possa ser relacionada à sensação de "presença espírita" relatada por algumas pessoas. Se esse for de fato o caso, "espíritos" não podem ser "detectados pelos sentidos".

"Mas não pode ser o caso que essa forma de energia existe, e só não sabemos como ela é, então não temos aparelhos para acusá-la?" Pode, teoricamente pode. "E será que algumas poucas pessoas não possuem os receptores sensoriais necessários para detectá-la, e a maioria das pessoas não?" De novo, teoricamente sim.
Mas, enquanto não houver uma variação de energia "espírita" detectável e não for encontrado um tipo de célula no corpo sensível a ela, não dá para falar em "sentir" espíritos - não no sentido dos outros sentidos.

Por outro lado, há vários estudos em neurociência que mostram que a percepção de presenças atribuíveis por exemplo a espíritos está associada a um padrão de ativação em regiões do córtex, como o parietal posterior e o lobo temporal. "A-ha, então os espíritos agem diretamente sobre o córtex cerebral!", podem dizer alguns. É uma interpretação possível - assim como é possível a outra interpretação, de que a percepção da presença do espírito é uma criação do seu córtex temporal. Mas enquanto a interpretação espírita não é testável pela ciência, a segunda interpretação é - e sim, é possível *provocar* uma sensação espírita apenas manipulando a atividade do cérebro...

Se Deus/espíritos/almas são uma criação do seu cérebro ou os criadores dele, portanto, fica a critério de cada um. A ciência nem prova, nem desaprova...

[excerto do post "O efeito Chico Xavier sobre as aulas de neurociência" - texto completo em:
http://www.suzanaherculanohouzel.com/journal/2010/4/29/o-efeito-chico-xavier-sobre-as-aulas-de-neurociencia.html]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Crenças (Suzana Herculano-Houzel)

Crenças (Suzana Herculano-Houzel)

Excerto da postagem “Sou ateia e sinto-me discriminada. Pronto, falei.” no blog http://www.suzanaherculanohouzel.com/

(...)
Crenças são produto do cérebro: modelos internos que criamos para explicar acontecimentos sistemáticos, não importa se baseados em evidências ou não, dentro dos quais nossos valores e experiências de vida se encaixam, e que nos ajudam não só a explicar eventos quanto a predizê-los, o que por sua vez ajuda a orientar nossas ações. Pessoas diferentes creem na bondade dos homens (ou na sua maldade intrínseca), na pureza das crianças, em guardar dinheiro na poupança, creem no governo, em educar-se muito e sempre ou em fazer o bem ao próximo.

A crença em Deus, em particular, resolve muitas questões de uma vez só: para começar, todas aquelas em que não conseguimos identificar um agente responsável pelos acontecimentos. A colheita foi boa? Deus quis. Foi péssima? Obra Dele, também, por algum de seus desígnios. Surgiu um câncer? Desapareceu sozinho? Nossos olhos e ouvidos internos são estruturas complexas e aparentemente improváveis? Obra de Deus.

Uma alternativa é aceitar que cânceres, dilúvios, seres altamente complexos e tantas outras coisas simplesmente acontecem, sem um Agente identificável. São obra do Acaso, ou da Natureza, ou de algum outro agente ainda não identificado. Para mim e meus colegas ateus (ou agnósticos: não vejo diferença prática entre uns e outros, assim como não vejo diferença entre crer na inexistência de Deus ou não crer na Sua existência), essa é nossa crença. A crença em um Ser superior, portanto, é tão boa quanto qualquer outra crença, posto que são crenças, justamente: nem melhor, nem pior.
(...)
[http://www.suzanaherculanohouzel.com/journal/2010/10/17/sou-ateia-e-sinto-me-discriminada-pronto-falei.html] - acesso: 21/out/2011