"Vem, Noite antiqüíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito. (...) "
[Álvaro de Campos (F. Pessoa), Fragmento de Ode I, in: "Fernando Pessoa: poesia", por Adolfo Casais Monteiro, 10ª ed., Rio de Janeiro, Agir, 1989, p. 76 (col. Nossos Clássicos)]

"(...) noites como esta, em que já não me será dado viver."
[Jostein Gaarder, "A garota das laranjas", Trad. Luiz Antônio de Araújo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 127 (citação possivelmente de outrem, constante também em alguma página anterior, provavelmente)]
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domingo, 23 de outubro de 2011

Casamento no cemitério

Noivos de Mauá escolhem cemitério para se casar
Willian Novaes | Do Diário do Grande ABC - 23/out/2011

No meio de sepulturas, salas de velórios e dentro de uma pirâmide. Esse foi o lugar que os noivos Vilmar Pedro da Silva, 30 anos e Aline de Jesus Silva, 28, escolheram para se casar na noite de ontem, no Jardim Primavera, em Mauá.

Eles não são góticos ou metaleiros e muito menos ateus. A noiva entrou de vestido branco, com buquê de rosas vermelhas e um crucifixo nas mãos. O padre da Igreja Católica Ortodoxa esperava para celebrar a cerimônia e alguns convidados tremiam, não era de medo, mas de frio. O espaço cultural do Cemitério Parque Vale dos Pinheiros foi cedido para os noivos pela administração.

A ideia da realização do casamento, após nove anos de namoro, surgiu dentro do cemitério mesmo. No Dia de Finados do ano passado, o casal como de costume andavam e namoravam nas pistas de caminhada.

"Na hora falei por brincadeira, já que não tínhamos gostado de alguns lugares pesquisados. Ele (o noivo) topou e depois ficou me cobrando. Aí não tive como desistir", comentou a noiva, minutos antes da cerimônia.

A autônoma Rita de Cassia Souza ficou assustada com a realização do casamento ao chegar no local para participar do velório de um conhecido.

"Isso é muito estranho, mas o lugar é bonito mesmo, Não faria o meu de jeito nenhum", opinou. O noivo sentiu na pele a estranheza da escolha do local do matrimônio. "Ontem (sexta) vim para acertar uns detalhes e uma adolescente passou e viu a decoração. Ela falou com a mãe dela. ‘Mãe, esse velório é de alguém muito importante'. Fiquei sem jeito", disse rindo.

O Parque Vale dos Pinheiros é um cemitério que oferece atividades extras, como aulas de ioga, pilates, massagens, bicicletário e até brinquedos para as crianças.

"Nossa proposta é que a área do cemitério possa ser usada pelos clientes e moradores da região em outros momentos, além da velório", disse a gerente administrativo Ivani Ferraz.

[http://www.dgabc.com.br/News/5921626/noivos-de-maua-escolhem-cemiterio-para-se-casar.aspx] - acesso: 23/out/2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cemitério (Emily Dickinson)

"Cemitério" (Emily Dickinson - Trad. Manuel Bandeira)

Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.

Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.

[Manuel Bandeira, Meus poemas preferidos, 8ª ed., Rio de Janeiro, Ediouro, 2004, p. 121-2 (Coleção Prestígio)]

quarta-feira, 6 de abril de 2011

E o bêbado Belmiro não foi ao cemitério

(...) De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma única pessoa lá não estivera, não matara nem profanara sepulturas: fora o bêbedo Belmiro. Entrando numa venda, meio aberta, e nela não encontrando ninguém, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas águas sobre o áspero leito de granito—ambos, ele e o rio, indiferentes ao que já viram, mesmo à fuga do farmacêutico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas. (...) [Lima BARRETO, A nova califórnia, parte final]

segunda-feira, 21 de março de 2011

Variações nos portais de necrópoles

"Nós que aqui estamos, por vós esperamos"

"Fomos o que és, serás o que somos"

"O que éramos tu és, o que somos tu serás"

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Série túmulos: Wittgenstein


"Foi o que tinha de ser." "Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa."
avaliação/comentários finais de Wittgenstein sobre sua vida

[a citação é de memória, de modo que pode estar equivocada ou incompleta]

[a citação está equivocada, com efeito "foi o que tinha de ser" (ou equivalente) é de Jung e não do Wittgenstein.] atualização de 12/nov/2012]

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Oswald, Pagu, Tarsila e Waldemar (Lia Zatz)

O Oswald era vinte anos mais velho que a Pagu, quer dizer, era homem feito, quando ela era ainda adolescente e normalista. Quando eles se conheceram, ele já tinha tido vários relacionamentos e estava casado com a pintora Tarsila do Amaral. (...) Pagu ficou íntima de Tarsila de Oswald, não faltava em uma reunião de sua casa. Os homens babavam por ela. Os que escreviam, faziam poemas para ela. Os que pintavam, faziam retratos dela. (...) Pagu estava com dezoito anos. Oswald, com trinta e oito. Tarsila, com quarenta e dois. (...) Era muita badalação para uma garota de dezoito anos, não era não Pagu? Como resistir aos olhos espichados do Oswald para o seu lado? Eles começaram a ter encontros secretos. E fizeram um diário juntos: escreviam bilhetes um pro outro, poemas, cartas. Oswald a chamava de Bebé, ela o chamava de Valdinho. Estavam apaixonados, ora se não estavam! Até que... Pagu ficou grávida! Do Oswald. Mulher solteira, grávida? De um homem casado? Amiga da mulher do homem casado? Naquela época? (...) “Se o lar de Tarsila vacila é pelo angu da Pagu” [piada-poema escrita por Oswald num guardanapo de restaurante]. Oswald convenceu um amigo e irmão de criação de Tarsila, um pintor chamado Waldemar Belisário, a se casar com a Pagu. Cerimônia simples em cartório. Tarsila e Oswald foram padrinhos do casamento e os noivos ganharam de presente um quadro da pintora. O casal partiu para a lua-de-mel. Deviam descer de carro até Santos e lá embarcar num navio para Paris. Isso é o que todos pensavam. Mas o plano de verdade era outro e já estava todo armado: no alto da serra, Oswald esperava-os em outro carro. Pagu seguiu com ele e o noivo voltou para São Paulo, sozinho. (...) Para deixar esfriar o escândalo, o casal sumiu por uns tempos. Viajaram. (...) Mas nada disso impediu a vida de Pagu com Oswald. Os dois estavam apaixonados e cheios de vontade de fazer coisas na vida. Foram morar juntos e celebraram um casamento de mentirinha. Sabe onde? No cemitério! Diante do túmulo da família do Oswald. Ele escreveu assim, no diário dos dois: “1930 - 5 de janeiro - Nesta data contrataram casamento a jovem amorosa Patrícia Galvão e o crápula forte Oswald de Andrade. Foi diante do túmulo do Cemitério da Consolação, à Rua 17, nº 17, que assumiram o heróico compromisso. Na luta imensa que sustentam pela vitória da poesia e do estômago, foi o grande passo prenunciador, foi o desafio máximo. Depois se retrataram diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora, sim, o mundo pode desabar.” Logo depois, a Pagu perdeu o bebê, mas engravidou de novo. O filho deles nasceu em setembro e foi chamado de Rudá, que nas lendas indígenas quer dizer o deus do amor. (...)

[Lia Zatz, PAGU, São Paulo, Instituto Callis, 2005, il. (A luta de cada um), - cópia/compilação/adaptação das páginas 29 a 42]

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Série túmulos: Schopenhauer


"Morrera conforme tinha vivido: inteiramente só. Na cabeça uma coroa de louros, foi o cadáver foi colocado em pesado caixão de carvalho e solenemente enterrado em sepultura orlada de sempre-vivas e coberta de uma lápide singela, na qual se lê o seu nome e nada mais."´
(in: Arthur Schopenhauer, Aforismos para a sabedoria na vida, trad. Genésio de Almeida Moura, 3ª ed., São Paulo, Melhoramentos, 1953?, p. 18 - parte final do "prefácio do tradutor").
As sempre-vivas já não orlam, mas dá para visualizar, smj, a maria-sem-vergonha.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mais ossos (Attílio Pessotti)

(...) Mas o mais impressionante e deprimente era o ossário, um grande poço construído na parte mais elevada do terreno, de modo ao não ter água no fundo, com mureta no alto, coberta com laje e tampa removível.

Ao ver outras crianças espiando, não contive a curiosidade e também arrisquei uma espiadela, mas me arrependi. Que visão tétrica, meu Deus! O que era aquilo?! Um monturo de ossadas humanas, despejadas na profundeza daquele poço. Oh! Terrível realidade que eu nunca tinha imaginado. Ossos de tantas formas e tamanhos, uns mais claros, outros mais escuros, marcados pelo tempo, entrelaçados com nesgas de pano que resistiram à decomposição.

Naquela macabra visão estava retratada a terrível realidade da morte. E eu, na minha infantil ingenuidade, achava que se poderia ouvir daquela profundeza alguns gemidos de almas penadas.

[Attílio PESSOTTI, Vila de São Bernardo, São Bernardo do Campo, Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 2007, p. 128]

domingo, 5 de setembro de 2010

Ossos (Arnaldo Jabor)

Ossos de avô

"Há dois anos, na exumação de um parente, o coveiro colocou várias caixas de ossos em cima do túmulo. Numa delas, estava escrito a giz 'Arnaldo Hess'. Não resisti e levantei de leve a tampa de zinco. Estavam lá os ossos de vovô. Vi um fêmur, tíbias, que eu toquei com a mão. Vocês não imaginam a infinita alegria de, por segundos, encostar em meu avô querido. Eu estava com ele de novo em 1952, sob o céu azul do Rio."

[Arnaldo JABOR, Amor é prosa, sexo é poesia: crônicas afetivas, Rio de Janeiro, Objetiva, 2004, p. 27]