"Vem, Noite antiqüíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito. (...) "
[Álvaro de Campos (F. Pessoa), Fragmento de Ode I, in: "Fernando Pessoa: poesia", por Adolfo Casais Monteiro, 10ª ed., Rio de Janeiro, Agir, 1989, p. 76 (col. Nossos Clássicos)]

"(...) noites como esta, em que já não me será dado viver."
[Jostein Gaarder, "A garota das laranjas", Trad. Luiz Antônio de Araújo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 127 (citação possivelmente de outrem, constante também em alguma página anterior, provavelmente)]
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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Últimas palavras – Christopher Hitchens (trecho)


Últimas palavras  (trecho) – Christopher Hitchens [do blog Paulopes]

Como tantas das experiências da vida, a novidade do diagnóstico de um câncer maligno tende a se dissipar. As coisas começam a ficar tediosas, até mesmo banais. É possível se acostumar ao espectro da morte como um velho entediado e letal, espreitando no corredor no final da noite, esperando uma oportunidade de me abordar. E não me oponho a ele segurar meu casaco daquele modo formal, como que me lembrando que é hora de seguir caminho. Não, é o risinho abafado que me deprime.

Com demasiada regularidade, a doença me serve um atrativo especial do dia, ou um sabor do mês. Podem ser feridas e úlceras aleatórias, na língua ou na boca. Por que não um toque de neuropatia periférica envolvendo pés dormentes e frios? A existência diária se torna uma coisa de bebê, medida não nas colheres de café do Prufrock de T.S. Elliot, mas em pequenas doses de alimento, acompanhadas de barulhos encorajadores dos espectadores ou de discussões solenes e em tom maternal com estranhos sobre as operações do sistema digestivo. Nos dias menos bons, me sinto como aquele leitão de perna de pau da família sadicamente sentimental, que só consegue comê-lo um pedaço de cada vez. Com a diferença de que o câncer não é tão... atencioso.

O mais desalentador e alarmante, até agora, foi o momento em que minha voz de repente se transformou num agudo guincho infantil (ou talvez suíno). Ela, então, começou a variar bastante, de um sussurro rouco e rascante até um balido frágil e melancólico. Em certos momentos ameaçava, e agora ameaça todos os dias, desaparecer completamente. Eu tinha acabado de voltar de duas palestras na Califórnia, onde, com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguira “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu. Fiquei de pé, paralisado, como um gato bobo que, de repente, perdeu seu miado. Eu costumava ser capaz de deter um táxi nova-iorquino a trinta passos de distância. Conseguia também, sem microfone, alcançar a última fila e a galeria de uma lotada sala de conferências. Pode não ser algo de que se vangloriar, mas as pessoas me diziam que, mesmo na sala ao lado, com o rádio ou o televisor ligados, elas sempre conseguiam identificar meu tom e saber que eu estava “no ar”.


Como a própria saúde, tal perda não pode ser imaginada até que acontece. Assim como todo mundo, brinquei de versões do jogo juvenil “o que você preferiria?”, no qual normalmente se debatia se o mais opressivo seria a cegueira ou a surdez. Não me lembro de ter especulado muito sobre de repente ficar mudo. A privação da capacidade de falar é mais como um ataque de impotência, ou a amputação de parte da personalidade. Em grande medida, em público e em particular, eu “era” minha voz. Todos os rituais e a etiqueta da conversa – desde pigarrear nos preparativos para contar uma piada longa e exigente até (nos dias de juventude) tentar tornar minhas propostas mais persuasivas, enquanto eu estrategicamente baixava o tom em uma oitava de constrangimento – eram inatos e essenciais para mim. Nunca fui capaz de cantar, mas podia recitar poesia e citar prosa, e algumas vezes era até mesmo convidado a fazê-lo. Timing é tudo na fala: há o momento preciso para arrematar uma história, para enfatizar um verso, para produzir riso ou para ridicularizar um oponente. Eu vivia para momentos assim. Agora, quando quero entrar numa conversa, tenho de chamar a atenção de outra forma, e suportar o fato terrível de que as pessoas então me escutarão “com compaixão”. Pelo menos, elas não precisam emprestar sua atenção por muito tempo: não consigo mantê-la e, de qualquer forma, não aguentaria fazê-lo.

Quando você fica doente, as pessoas lhe dão CDs. Pela minha experiência, com frequência são de Leonard Cohen. Recentemente aprendi uma canção, intitulada “If it be your will”. É um pouquinho piegas, mas belamente interpretada.
Começa assim: “If it be your will/that I speak no more/and my voice be still/as it was before...” (Se for seu desejo/que eu não fale mais/e minha voz ainda seja/como foi antes...). Acho melhor não ouvir isso tarde da noite. Leonard Cohen é inimaginável sem, e indissociável de, sua voz. (Duvido que quisesse, ou suportasse, ouvir essa canção com qualquer outro intérprete.) Digo a mim mesmo que, de certa forma, conseguiria me arrastar, me comunicando apenas por escrito. Mas só por causa de minha idade. Caso tivesse sido privado de minha voz antes, duvido que teria conseguido progredir no papel. Tenho uma enorme dívida para com Simon Hoggart, do Guardian, que, há trinta e cinco anos, me advertiu que um artigo meu era bem concebido mas tedioso – e me aconselhou rispidamente a escrever “mais do modo como você fala”. Na época, fiquei quase sem palavras com a acusação de ser tedioso. Jamais agradeci adequadamente.

Mais tarde, ao dar minhas aulas de redação, começava dizendo que qualquer um capaz de falar também pode escrever. Depois de animar a turma com essa escada fácil, então a substituía por uma enorme cobra odiosa: “Quantas pessoas nesta turma vocês diriam que sabem falar? Quero dizer, falar de verdade?”. Tinha um efeito deprimente. Eu dizia a eles para ler seus textos em voz alta, preferencialmente para um amigo de confiança. As regras são quase as mesmas: fuja das frases feitas (como da peste, costumava dizer William Safire) e das repetições. Não diga que “quando garoto, sua avó costumava ler para você”, a não ser que, naquele estágio da vida, ela realmente tivesse sido um garoto, circunstância que, de qualquer forma, provavelmente exigiria de você uma introdução melhor. Se algo merece ser escutado, muito provavelmente merece ser lido. Então, descubra sua própria voz.

O cumprimento mais prazeroso que um leitor pode me fazer é dizer que sente que me dirijo a ele. Pense em seus autores preferidos e veja se essa não é uma das coisas que o cativam, sem que você tenha percebido. Uma boa conversa é o único equivalente humano: é quando você percebe que observações decentes são feitas e compreendidas, que há ironia envolvida, e elaboração, que um comentário tedioso ou óbvio seria quase fisicamente doloroso. Foi como a filosofia evoluiu nos simpósios, antes de ser escrita. A poesia começou com a voz como único instrumento de execução, e o ouvido, de registro. Não conheço nenhum escritor realmente bom que fosse surdo. Henry James e Joseph Conrad ditaram seus romances tardios, e Saul Bellow ditou muito de Humboldt’s Gift. Sem nossa correspondente compreensão do idioleto – a marca no modo como alguém fala e, portanto, escreve –, seríamos privados de um mundo de simpatia humana e de seus prazeres em tom menor de imitação e paródias.

De modo mais solene: “Tudo o que tenho é uma voz”, escreveu W.H. Auden em “September 1, 1939”, sua tentativa agoniada de compreender o – e se opor ao – triunfo do mal radical. “Quem pode alcançar o surdo?”, perguntou ele, desesperadamente. “Quem pode falar pelo mudo?” Mais ou menos na mesma época, a judia alemã Nelly Sachs, futura ganhadora do Nobel, descobriu que o surgimento de Hitler a deixara literalmente sem fala: roubara dela sua voz pela total negação de todos os valores. Nosso próprio idioma cotidiano preserva a ideia, embora amenizada: quando uma figura pública morre, os obituários com frequência dizem que ela foi “uma voz” para os não ouvidos.

Da garganta humana também podem emergir terríveis venenos: pranto, monotonia, queixumes, gritos, incitação (“o lixo militante mais vazio”, como Auden definiu no mesmo poema) e mesmo risinhos abafados. É a chance de erguer pequenas vozes serenas contra essa torrente de falatório e ruído, as vozes de perspicácia e contenção. Todas as melhores lembranças de sabedoria e amizade, da Apologia de Sócrates, por Platão, ao Life of Johnson, de James Boswell, vibram com os momentos não ditos, não programados, de interrelação, razão e especulação. É em embates como esse, competindo e se comparando a outros, que se pode esperar descobrir o fugidio e mágico mot juste, a palavra certa. Para mim, lembrar amizade é lembrar conversas que parecia um pecado interromper, aquelas que transformavam o sacrifício do dia seguinte em algo banal. Foi o modo pelo qual Calímaco escolheu lembrar seu amado Heráclito: “Eles me contaram, Heráclito; eles me contaram que você estava morto. Eles me levaram notícias amargas de ouvir, e lágrimas amargas a derramar. Chorei quando lembrei com que frequência você e eu havíamos cansado o sol conversando”. Ele sustenta a imortalidade do amigo na doçura de seus tons: “Ainda estão tuas vozes agradáveis, teus rouxinóis despertos; pois a Morte leva tudo, mas elas, não pode levar.” Talvez meio exaltado demais no verso final...

Na literatura médica, a corda vocal é uma mera “prega”, um pedaço de cartilagem que se esforça para se esticar e tocar sua gêmea, criando efeitos sonoros. Mas sinto que tem de haver uma relação profunda com a palavra “corda”: a vibração ressoante que pode despertar lembranças, produzir música, evocar amor, gerar lágrimas, conduzir multidões à piedade e turbas à paixão. Podemos não ser, como costumávamos nos vangloriar, os únicos animais capazes de falar. Mas somos os únicos que podem usar a comunicação verbal por prazer e diversão, combinando isso com razão e humor para produzir sínteses mais elevadas. Perder essa habilidade é ser privado de uma gama de capacidades: certamente é morrer mais que um pouco.

Meu maior consolo neste ano vivendo moribundo tem sido a presença de amigos. Já não consigo comer ou beber por prazer, então, quando eles se oferecem para vir, é só pela abençoada oportunidade de conversar. Alguns desses camaradas podem facilmente encher um auditório de pagantes ávidos para ouvi-los. São falantes com quem é um privilégio simplesmente estar. Agora eu, pelo menos, posso escutar de graça. Eles podem vir e me ver? Sim, mas só eles falam, eu escuto. Então, agora, todo dia vou para uma sala de espera e vejo as notícias terríveis sobre o Japão na TV a cabo (frequentemente em closed caption, apenas para me torturar), e espero impaciente que uma grande dose de prótons seja disparada para dentro do meu corpo a dois terços da velocidade da luz. O que espero? Se não uma cura, uma remissão. E o que quero de volta? Na mais bela composição de duas das palavras mais simples do idioma, freedom of speech. [Liberdade de expressão (literalmente, liberdade de fala)].

Últimas Palavras, de Christopher Hitchens
Globolivros, 96 págs., R$ 24,90
ISBN 978-85-250-5274-2


[do blog do Paulo Lopes http://www.paulopes.com.br/2012/09/trecho-do-ultimas-palavras-de-hitchens.html#ixzz27gxVTyzW]

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Leitura para ficar esperto (revista Superinteressante)


Ciência Maluca
Quer ficar esperto? Leia um livro que não faz sentido
por Nina Weingrill

Psicólogos americanos pediram a voluntários que lessem Um Médico Rural, de Franz Kafka - um conto surrealista, com algumas passagens aparentemente sem sentido. Outro grupo leu uma versão reescrita do livro, que fazia sentido. Depois, todo mundo fez uma prova de gramática - e quem tinha lido a versão sem pé nem cabeça se saiu melhor. Possível explicação: o nonsense motiva o cérebro, que fica mais alerta.
[http://super.abril.com.br/ciencia/quer-ficar-esperto-leia-livro-nao-faz-sentido-614971.shtml]
[versão impressa: Revista Superinteressante, janeiro/2010, p. 28 (seção Supernovas)]

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A diaba e sua filha (Marie Ndiaye)

A diaba e sua filha (Marie Ndiaye), Cosacnaify

A atmosfera noturna dá à história da autora franco-senegalesa Marie NDiaye, vencedora do Goncourt de 2009, um caráter sombrio e misterioso. O sincretismo de NDiaye ecoa em seu texto, mescla de metáforas dos contos de fada tradicionais e de elementos da literatura antilhana. No livro, uma diaba sai todas as noites da floresta à procura de sua filha que desapareceu misteriosamente, junto com a casa onde moravam. Foi quando a diaba percebeu também que seus delicados pés haviam se transformado em cascos de cabra – deformidade que causa repulsa nas pessoas. A ambiguidade da personagem – alegoria da noite –, de face graciosa, olhos doces, mas com cascos no lugar dos pés, suscita no leitor alguma hesitação e muitos questionamentos. Um livro enigmático que nos convida a refletir sobre como o afeto é capaz de humanizar até a aparentemente mais aterrorizante criatura e sobre a importância de se respeitar as diferenças, visíveis e invisíveis.

“NDiaye escreve sobre os nossos medos e o modo como eles são colectivamente construídos. Escreve sobre a necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e maus, em anjos e monstros.” Mia Couto

http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11527/A-diaba-e-sua-filha.aspx

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ler livros pela segunda vez pode ser terapêutico (revista Galileu)

Ler livros pela segunda vez pode ser terapêutico

A dica também vale para filmes assistidos mais de uma vez.

por Redação Galileu (Revista Galileu)
Quem lê o mesmo livro ou assiste ao mesmo filme mais de uma vez já tem uma desculpa para dar aos familiares e amigos. A mania não tem nada a ver com vício ou comportamento obsessivo, mas é um esforço consciente para encontrar camadas de significado mais profundas no material e refletir sobre o próprio amadurecimento.
Esse é o resultado de uma pesquisa liderada por Cristel Russel, professor da American University, nos Estados Unidos. Ele entrevistou 23 pessoas para identificar as razões para o que chamou de “re-consumo” de um material e descobriu que o comportamento não é uma tentativa de reviver o passado, mas uma busca por significado, que pode ter grande valor emocional.
O re-consumo pode, inclusive, servir como uma espécie de terapia, uma vez que permite que a pessoa analise como sua interpretação do livro ou filme mudou com o decorrer do tempo. Segundo os cientistas, isso pode servir de contraste entre o eu atual e o eu do passado. Eles citam como exemplo o caso de um participante do estudo. Pastor evangélico, ele releu a Bíblia inúmeras vezes. De acordo com sua idade, interpretava passagens de modo diferente – um sinal de crescimento.
O resultado da pesquisa, publicada na revista Journal of Consumer Research, pode ser usado pelo mercado de livros. Segundo Russel, os vendedores sempre tentam trazer experiências novas e frescas, mas as velhas experiências também podem ser repetidas de modo a abrir novas perspectivas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Amores proibidos na História do Brasil - Trecho (Maurício Oliveira)

Amores proibidos na História do Brasil - Trecho (Maurício Oliveira)
Escrito pelo jornalista Maurício Oliveira, "Amores Proibidos na História do Brasil" narra conturbados romances de importantes personagens da história. O livro apresenta brigas, traições, separações e juras de amor.
[Trecho do livro “Amores proibidos na história do Brasil, Maurício Oliveira, Ed. Contexto]
Amores proibidos nunca foram fáceis. Por influência de algum mecanismo insensato da psiquê humana, as paixões se tornam ainda mais sedutoras, perturbadoras e atraentes quando há algum impedimento para que se realizem em toda sua plenitude. É justamente na impossibilidade de se entregar plenamente ao outro que o mais nobre dos sentimentos acaba muitas vezes se confundindo com os seus opostos, a dor e o sofrimento.
Não deixa de ser curioso, no entanto, que essa dubiedade tenha sido responsável ao longo dos tempos por impulsionar e mudar os rumos da humanidade. Quantas guerras e decisões políticas terão sido secretamente motivadas por um amor proibido? A criação artística também se abastece amplamente dessa fonte. A música, o teatro, a dança, a literatura, todas essas formas de expressão se inspiram com muito mais frequência em angustiantes paixões não correspondidas e amores rompidos do que na tranquila sensação de viver um amor sem complicações.
Ao descrever paixões vividas por personalidades da história do Brasil, este livro evidencia que, quando se trata de assuntos do co ração, todos são gente como a gente, sujeitos a erros e acertos, dúvidas e certezas. Apresentadas em conjunto, as histórias formam um panorama dos nossos mais conhecidos e importantes amores proibidos. Os sete relacionamentos incluídos trazem, como ponto em comum, o fato de terem brotado em meio a grandes obstáculos - adultério, conflitos de classe, preconceitos, convenções sociais ou disputas por poder.
A primeira história é sobre o surpreendente relacionamento entre o rico contratador de diamantes João Fernandes e a escrava Chica da Silva. Fernandes podia escolher qualquer sinhazinha como esposa - havia uma fila de pretendentes -, mas encantou-se com Chica quando a viu pela primeira vez, em 1753. Era um relacionamento proibido por dois fatores. O primeiro, de ordem prática, é que ela pertencia a outro homem, um influente juiz da região do Arraial do Tejuco, atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. O segundo é que não era comum à época que um homem branco e rico escolhesse uma escrava como esposa - muitos tiravam proveito sexual das suas escravas, mas não assumiam essas relações e muito menos os filhos resultantes delas. João Fernandes precisou de firmeza e coragem para subverter os padrões vigentes.
No caso de Dom Pedro I e Domitila Castro, que se tornaria mais conhecida como marquesa de Santos, o maior impedimento para a relação, iniciada em 1822, era o fato de o príncipe ser casado com Leopoldina. Quando a esposa de Dom Pedro morreu, ainda muito jovem, os problemas passaram a ser outros. Havia uma grande oposição popular à possibilidade de uma união dele com sua amante, considerada responsável pelo adoecimento da imperatriz.
Além do mais, Dom Pedro sentia a necessidade de estabelecer uma nova aliança estratégica com uma família nobre europeia, como de fato acabou ocorrendo. Domitila, que talvez tenha sido a única mulher que o príncipe verdadeiramente amou, não cabia nesses planos. Assim, a ardente e intensa paixão entre os dois chegou ao fim depois de sete anos.
Motivos para considerar proibido o amor entre Giuseppe e Anita Garibaldi também não faltam. Quando o revolucionário italiano conheceu a jovem na cidade catarinense de Laguna, em 1839, ela era casada. Além disso, Anita se envolveria em uma série de aventuras à margem da lei ao seguir Giuseppe. Essas mesmas circunstâncias podem ser evocadas para descrever a origem do relacionamento entre Lampião e Maria Bonita, em 1930. Ela também era casada e, por amor, aceitou se submeter à vida errante dos cangaceiros. Tanto Anita quanto Maria Bonita pagaram com a vida pelas escolhas feitas.
No que diz respeito a Joaquim Nabuco e Eufrásia Teixeira Leite, o amor se tornou proibido não porque um dos dois fosse comprometido - ao contrário, ambos eram livres quando se conheceram, em 1873 -, mas por uma série de desencontros de expectativas e diferenças de opinião. No início, a maior polêmica parecia ser o grau de intimidade permitido para o namoro. Logo outros impasses bem mais complexos surgiriam, contudo. Eufrásia era muito rica e tinha medo de que o bon vivant Joaquim torrasse a fortuna que ela havia herdado do pai. Outro empecilho para o casamento é que ela não aceitava morar em outro lugar que não fosse Paris, enquanto ele não imaginava seu futuro distante do Brasil. Além do mais, Eufrásia vinha de uma família com tradição escravocrata e Joaquim se tornaria justamente o maior líder do movimento abolicionista. De impasse em impasse, 15 anos se passaram - até que Joaquim, cansado de esperar, decidiu se casar com outra.
Chiquinha Gonzaga teve que enfrentar o preconceito social contra a diferença de idade ao se apaixonar por Joãozinho, 36 anos mais jovem, em 1899. Mulher independente e realizadora, ela já havia superado uma série de dificuldades, como separar-se de dois maridos e conquistar um espaço até então inédito para mulheres no cenário musical brasileiro. Mesmo com esse histórico, Chiquinha não encontrou forças para assumir de peito aberto o relacionamento com o rapaz. Preferiu divulgar a versão de que Joãozinho era seu filho, sustentada até o final da vida, quase quatro décadas depois - período em que o rapaz se manteve como seu companheiro fiel e inseparável, contrariando todos os prognósticos de quem imaginava um relacionamento breve.
Já o amor entre Oswald de Andrade e Pagu surgiu tão intenso que todo mundo imaginou que duraria para sempre. Em 1928, aos 40 anos, ele deixou a mulher, a pintora Tarsila do Amaral, para viver com a jovem escritora. O relacionamento começara sob o estigma do adultério, um fantasma que jamais deixaria de existir entre eles, pois Oswald mantinha relacionamentos com outras mulheres mesmo depois de casado com Pagu. Sob as bênçãos do modernismo, que tinha como uma das premissas o rompimento com a tradição romântica, ele queria que Pagu concordasse placidamente com essa situação, mas sem ter direito ao mesmo grau de liberdade. Outro elemento complicador da relação foi a entrega de Pagu à militância comunista - o partido vivia na clandestinidade e ela foi presa inúmeras vezes. A relação não resistiu a tantas turbulências e se desfez depois de sete anos.
Quando tomamos conhecimento dos detalhes de todas essas histórias, uma questão logo se impõe: será que essas pessoas se arrependeram de ter vivido casos de amor tão intensos e sofridos? Teriam preferido uma trajetória mais tranquila, mais segura, sem tantos sobressaltos? Ou o amor sempre vale a pena, independentemente dos obstáculos e das dores que fazem parte do pacote? Talvez essa resposta, leitor, caiba a você. Boa viagem ao fascinante universo dos amores proibidos.
[Trecho do livro “Amores proibidos na história do Brasil, Maurício Oliveira, Ed. Contexto]

[http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/1046667-leia-trecho-de-amores-proibidos-na-historia-do-brasil.shtml]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Arrependimentos dos que vão morrer (Bronnie Ware)

Livro lista 5 principais arrependimentos de pessoas prestes a morrer

Enfermeira australiana relatou experiências com pacientes terminais e diz que aprendeu que não se deve acumular frustrações.

02/02/2012 09h57 - Atualizado em 02/02/2012 10h18 [Portal G1]

Uma enfermeira australiana lançou um livro com uma lista de cinco principais arrependimentos de pessoas que estão prestes a morrer.
Bronnie Ware, que é especialista em cuidados paliativos e doentes terminais, afirma que reuniu em seu livro 'confissões honestas e francas de pessoas em seus leitos de morte', confissões que, segundo ela, mudaram sua vida.
'Encontrei uma lista grande de arrependimentos, mas, no livro, me concentrei nos cinco mais comuns', disse a autora à BBC.
'O principal arrependimento de muitas pessoas é o de não ter tido coragem de fazer o que realmente queriam e não o que outros esperavam que fizessem', acrescentou.
'Outro arrependimento comum é de não terem trabalhado um pouco menos, o que fez com que perdessem muitas coisas em suas vidas', disse Ware.
O livro de Ware, intitulado The Top Five Regrets of the Dying - A Life Transformed by the Dearly Departing ('Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte', em tradução livre) relata as experiências da autora durante anos de trabalho em cuidados de doentes terminais.
Os pacientes de Ware, geralmente, eram pessoas que já não tinham chances de recuperação e podiam morrer a qualquer momento.
A enfermeira afirma que isto permitiu que ela compartilhasse com estes pacientes 'momentos incrivelmente especiais porque passei com eles as últimas três a doze semanas de suas vidas'.
Texto viral
Ware conta que a ideia para o livro surgiu depois que um artigo que publicou em seu blog transformou-se em um texto viral, espalhando-se pela web.
'As pessoas amadurecem muito quando precisam enfrentar a própria mortalidade', afirmou.
'Cada pessoa experimenta uma série de emoções, como é esperado, que inclui negação, medo, arrependimento, mais negação e, em algum momento, aceitação.'
A enfermeira garante que cada um dos pacientes que tratou 'encontrou sua paz antes de partir'.
Ware disse à BBC que, durante os anos em que trabalhou com estes pacientes, percebeu também que muitos se arrependiam de não terem tido 'coragem para expressar seus sentimentos'.
'E isso se aplica tanto aos sentimentos positivos quanto aos negativos.'
'Muitos diziam: 'queria ter tido coragem de falar que não gostava de uma coisa', ou então que queriam ter tido coragem de falar às pessoas o que realmente sentiam por elas', afirmou.
Amigos
Bronnie Ware também destacou outro arrependimento que notou entre seus pacientes: o de ter perdido o contato com os amigos.
A enfermeira afirmou que os amigos são importantes no fim da vida, uma vez que os parentes que acompanham um doente terminal também enfrentam muita dor.
Uma pessoa no leito de morte, segundo Ware, sente falta dos amigos, mas, muitas vezes, a perda de contato ao longo dos anos impede um reencontro.
A enfermeira também chama a atenção para o fato de que as pessoas se arrependem do que não fizeram. Na maioria dos casos observados por ela, as pessoas não pareciam se arrepender de algo que tinham feito.
A autora afirma que espera que seu livro 'ajude as pessoas a agir hoje e a não deixar as coisas para amanhã e se arrepender depois'.
[http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/02/livro-lista-5-principais-arrependimentos-de-pessoas-prestes-a-morrer.html]


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Veja os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão para morrer
09/02/2012 - 12h19 (site da Folha de São Paulo)
Uma enfermeira que aconselhou muitas pessoas em seus últimos dias de vida escreveu um livro com os cinco arrependimentos mais comuns das pessoas antes de morrer.
Bronnie Ware é um enfermeira que passou muitos anos trabalhando com cuidados paliativos, cuidando de pacientes em seus últimos três meses de vida. Ela conta que os pacientes ganharam uma clareza de pensamento incrível no fim de suas vidas e que podemos aprender muito desta sabedoria.
"Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente", disse Bronnie ao jornal britânico "The Guardian".
Confira a lista e os comentários da enfermeira:
1. Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse
"Esse foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que a vida delas está quase no fim e olham para trás, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não realizou nem metade dos seus sonhos e têm de morrer sabendo que isso aconteceu por causa de decisões que tomaram, ou não tomaram. A saúde traz uma liberdade que poucos conseguem perceber, até que eles não a têm mais."
2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto
"Eu ouvi isso de todo paciente masculino que eu trabalhei. Eles sentiam falta de ter vivido mais a juventude dos filhos e a companhia de seus parceiros. As mulheres também falaram desse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais antiga, muitas não tiveram uma carreira. Todos os homens com quem eu conversei se arrependeram de passar tanto tempo de suas vidas no ambiente de trabalho."
3. Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos
"Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para ficar em paz com os outros. Como resultado, ele se acomodaram em uma existência medíocre e nunca se tornaram quem eles realmente eram capazes de ser. Muitos desenvolveram doenças relacionadas à amargura e resentimento que eles carregavam."
4. Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos
"Frequentemente eles não percebiam as vantagens de ter velhos amigos até eles chegarem em suas últimas semanas de vida e não era sempre possível rastrear essas pessoas. Muitos ficaram tão envolvidos em suas próprias vidas que eles deixaram amizades de ouro se perderem ao longo dos anos. Tiveram muito arrependimentos profundos sobre não ter dedicado tempo e esforço às amizades. Todo mundo sente falta dos amigos quando está morrendo."
5. Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz
"Esse é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos só percebem isso no fim da vida que a felicidade é uma escolha. As pessoas ficam presas em antigos hábitos e padrões. O famoso 'conforto' com as coisas que são familiares O medo da mudança fez com que ele fingissem para os outros e para si mesmos que eles estavam contentes quando, no fundo, eles ansiavam por rir de verdade e aproveitar as coisas bobas em suas vidas de novo."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Contabilizando cadáveres (Jennifer Schuessler)

Contabilizando cadáveres (Jennifer Schuessler)

Com seus gráficos estilosos e coloridos, "The Great Big Book of Horrible Things: The Definitive Chronicle of History's 100 Worst Atrocities" (O grande livro de coisas horríveis: a crônica definitiva das cem piores atrocidades da história) pode parecer mais com um candidato a clássico de leitura macabra de banheiro que com um esforço sério de pesquisa.
Mas o livro de Matthew White, de Richmond, Virgínia, louco por números e que se descreve como "atrocitologista", chega acompanhado de recomendações de estudiosos diversos, incluindo um prefácio do psicólogo Steven Pinker, da Universidade Harvard.
White, 54 anos, não tem diploma universitário nem formação em história ou estatística. Ele compila números de fontes secundárias diversas durante as horas livres de seu trabalho de bibliotecário.
Os números são estarrecedores e vão desde os conhecidos (1,67 milhão de vítimas do Khmer Vermelho, a atrocidade n° 39 na lista de White) até os quase esquecidos (13 milhões de mortos na rebelião de An Lushan, na China do século 8, 13° no ranking).
Quinze anos atrás, White desenhou um mapa ilustrando o colapso da União Soviética e o postou na internet. Mais mapas se seguiram e assim nasceu seu "Historical Atlas of the 20th Century".
A obsessão por contabilizar mortos começou mais tarde, acompanhada de um acúmulo constante de citações por acadêmicos reconhecidos: 377 livros publicados e 183 artigos.
A metodologia usada por White é simples. Ele reúne todas as estimativas que consegue encontrar. Rejeita os números maiores e menores e calcula a média, chegando a um número que ele reconhece que não passa de um palpite fundamentado. As mortes de fomes generalizadas e doenças decorrentes de conflitos armados são levadas em conta, mas não os desastres naturais e eventos econômicos ("é preciso haver uma base de violência", ele explicou).
Nem todos os acadêmicos confiam tão plenamente nos números de White. Benedict F. Kiernan, diretor do Programa de Estudos de Genocídio da Universidade Yale e especialista no Khmer Vermelho, disse em e-mail que fazer palpites sobre médias pode ser enganoso.
E White pode deslanchar discussões com as equivalências que traça, como, por exemplo, incluir as vítimas do Holocausto no total de 66 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, que, em seu livro, é o n° 1 entre as coisas mais horríveis de todos os tempos.
Para Pinker, as estimativas feitas por White "ficam do lado superior da escala". A questão de qual governante ou regime é o pior, segundo Charles Maier, historiador da Universidade Harvard, "ainda é uma pergunta muito natural", embora a maioria dos historiadores resista a focar os números.
"Ele (White) é um sujeito que não tem medo de sujar as mãos," observou Maier.

[Folha de São Paulo, 21/nov/2011 - caderno The New York Times, p. 6]

domingo, 20 de novembro de 2011

7 fatores que fazem as pessoas acreditarem em coisas estranhas (sobre o livro de Michael Shermer)

7 fatores que fazem as pessoas acreditarem em coisas estranhas (sobre o livro de Michael Shermer)

Ana Carolina Prado | 18 de novembro de 2011

Em uma pequena cidade de Illinois (EUA), um bandido misterioso – e bizarro – estampava as capas dos jornais lá por volta de 1944. Tudo começou com uma mulher que declarou que um homem entrou em seu quarto no meio da noite e anestesiou suas pernas com um spray a gás paralisante. Logo apareceram os jornais com manchetes como “BANDIDO DO ANESTÉSICO À SOLTA”. E, nos 13 dias seguintes, cerca de 25 casos semelhantes foram relatados e amplamente explorados pela imprensa. A polícia da cidade ficou de prontidão. E os maridos com suas armas carregadas. Duas semanas depois, ninguém havia sido preso. E nenhum vestígio químico havia sido descoberto. Assim, tanto a polícia quanto a mídia começaram a se referir ao evento como um caso de “histeria de massa”.

Ondas de avistamentos de ETs, chupacabras, fantasmas ou bandidos bizarros cuja existência nunca foi comprovada aparecem de tempos em tempos em diversos lugares. Às vezes, vira moda ver sinais milagrosos – ou mensagens malignas escondidas em músicas, rótulos, filmes. Mas o que leva uma pessoa a acreditar em coisas como essas? É disso que fala o livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”, do psicólogo e historiador da ciência americano Michael Shermer. O critério usado por ele para definir o que são coisas “estranhas” é a falta de evidências científicas para comprovar sua existência.

Com base no livro, listamos alguns fatores que influenciam nesse tipo de crença – e podem fazer, inclusive, com que pessoas extremamente inteligentes sejam pegas. Afinal, garante ele, ninguém está completamente imune à histeria coletiva. Dê uma lida e depois diga pra gente se você concorda ou não.

1. Elas querem acreditar

Segundo Michael Shermer, a principal razão pela qual as pessoas acreditam em coisas estranhas é simpes: elas querem acreditar. Mas por que? Porque dá bem-estar, é reconfortante e consola. Para Shermer, se alguém perguntar qual é a sua posição sobre a vida após a morte, é provável que você diga que é favorável. E explica: “O fato de eu ser favorável à vida após a morte não significa que vou consegui-la [ou que ele acredito nela]. Mas quem não a quereria? É esse o ponto. É uma reação muito humana acreditar nas coisas que nos fazem sentir melhor”.

2. A gratificação imediata

Muitas crenças estranhas promovem um bem-estar instantâneo. Shermer cita no livro o exemplo dos médiuns que atendem pelo telefone – a um custo de 3,95 dólares por minuto. Eles usam as chamadas técnicas de leitura a frio: vão tentando adivinhar as coisas partindo de informações mais gerais (envolvendo coisas banais que são verdadeiras para quase todo mundo, como “pressões financeiras vêm lhe causando problemas” – afinal, até Eike Batista terá um dia difícil se perder grana no mercado financeiro). A partir das pistas que as pessoas vão dando, os supostos médiuns conseguem deduzir as informações mais específicas que irão impressionar. Se o médium diz algo que não corresponde à realidade da pessoa naquele momento, a saída é simples: ele diz que a coisa vai acontecer no futuro. E a pessoa acredita. Afinal, a grande sacada é que eles não precisam estar certos o tempo todo. “Quem telefona costuma esquecer os erros e lembrar mais dos acertos e, o mais importante, as pessoas desejam que o médium acerte. Os céticos não gastam 3,95 dólares por minuto nisso, mas os crentes sim”, explica o autor.

3. Simplicidade

Para termos uma gratificação imediata, é preciso que as crenças tenham explicações simples para as coisas complexas do mundo. “Coisas boas e ruins acontecem tanto para as pessoas boas quanto para as ruins, aparentemente de modo aleatório. As explicações científicas costumam ser complicadas e requerem treino e esforço para ser entendidas. A superstição e a crença no destino e no sobrenatural oferecem um caminho mais simples”, diz Shermer. Para ilustrar isso, ele conta uma experiência de Harry Edwards, chefe da Australian Skeptics Society (Sociedade dos Céticos Australianos).

Edwards publicou uma carta num jornal local falando sobre uma galinha de estimação que ele costumava carregar empoleirada nos seu ombro. Às vezes, porém, ela não se segurava e acabava deixando um “cartão de visitas” na sua camisa. Mas o que poderia ser algo desagradável acabava dando origem a acontecimentos muito positivos. Edwards listou alguns desses episódios e os correlacionou com certos eventos que ocorriam em seguida e chegou à conclusão de que o cocô da galinha lhe trazia boa sorte. Sempre que ela carimbava sua roupa, ele encontrava uma carteira com dinheiro, ganhava na loteria, recebia alguma notícia boa. Então ele levou a ave para várias consultas espirituais e descobriu que ela havia sido um filantropo numa vida passada e que tinha reencarnado para fazer o bem às pessoas – por meio de suas fezes. Assim, Edwards terminou sua carta ao jornal oferecendo-se para vender saquinhos com o “cocô da sorte” de sua galinha. Era tudo um teste, mas ele recebeu dois pedidos e 20 dólares pela “mercadoria”. Sim, houve pessoas que compraram a história. Porque ela era simples – mais fácil que as leis da probabilidade, por exemplo.

4. Nível de incertezas e perigos do local

O local onde a pessoa está influencia suas crenças. Estudos mostraram que quanto mais incertezas o ambiente oferece, maior é a superstição. O antropólogo Bronislaw Malinowski constatou, por exemplo, que os habitantes das ilhas Trobriand, no litoral da Nova Guiné, recorriam mais a rituais supersticiosos à medida que se afastavam no mar para pescar. Nas águas calmas das lagoas a que estavam acostumados, os rituais desapareciam. Ele concluiu, então, que a magia aparece em situações em que estão em jogo a incerteza, o acaso e um jogo emocional intenso entre a esperança e o medo. “Não encontramos isso quando a atividade é certa, confiável e está sob o controle de métodos racionais e processos tecnológicos”, conta Malinowski.

5. Abertura a novas experiências

Estudos envolvendo experiências místicas concluíram que as pessoas com maior predisposição ao misticismo (ou seja, à crença em coisas estranhas) tendem a ter uma personalidade com altos níveis de complexidade, abertura a novas experiências, variedade de interesses, inovação, tolerância à ambiguidade e criatividade. Elas também podem ter maior propensão a serem absorvidas em fantasias, capacidade de suspender o processo de julgamento que permite separar eventos reais e imaginação e uma boa disposição de investir seus recursos mentais para representar o objeto imaginário do modo mais vívido possível.

6. O fato de pessoas inteligentes em um campo da ciência não serem necessariamente inteligentes em outro

Michael Shermer chama atenção para o fato de que muitos pesquisadores brilhantes em certas áreas podem cometer erros e deixar passar fatos importantes, por ignorância, ao fazerem incursões em outras áreas. “Os recém-chegados de outros campos, que em geral se enfiam com os dois pés sem o treino e a experiência exigidos, passam a gerar novas ideias que consideram – por causa do sucesso que obtiveram em seu próprio campo – revolucionárias”. O problema é que, na maioria dos casos, aquelas ideias já foram avaliadas anos ou até décadas antes – e foram rejeitadas por razões legítimas.

7. “Pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas porque têm capacidade para defender crenças às quais chegaram por razões não inteligentes”

Segundo Shermer, a maioria das pessoas constitui suas crenças por uma variedade de razões que não têm muita evidência empírica nem raciocínio lógico. Elas fazem suas escolhas segundo variáveis como a constituição genética, social, influência de familiares e amigos, experiências pessoais etc. “Selecionamos dentre a massa de dados aquilo que confirme mais as coisas em que já acreditamos e ignoramos ou racionalizamos o que não vem confirma-las. Todos fazemos isso, mas as pessoas inteligentes fazem melhor, seja por talento ou por estarem treinadas”, explica. Assim, elas também podem defender melhor suas crenças para si mesmas.

http://super.abril.com.br/blogs/como-pessoas-funcionam/7-fatores-que-fazem-as-pessoas-acreditarem-em-coisas-estranhas/

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Livros, leitores e antileitores (Roberto Damatta) - excertos

Livros, leitores e antileitores (Roberto Damatta) - excertos
 (...)
Tal como as pessoas, os títulos dos livros enganam leitores, bibliotecários e autores. Um sujeito bem vestido e falante, quando devidamente aberto, revela-se uma toupeira ou um Evereste de empáfia. Um nobre ministro surge como um chefe de quadrilha feito por ONGs que desviam dinheiro público para um partido cujo nome remete a abnegados e virtuosos.
Meu colega e amigo, o cientista político Eduardo Raposo, ouviu de seu primo Lobinho a seguinte história: um sujeito chega a uma biblioteca e pede um livro de botânica. O funcionário prontamente lhe apresenta com um sorriso alvar Raízes do Brasil.
(...)
Na esteira dos antileitores, voltei ao Raposo e ele relata que seu primo Lobinho havia feito uma grande descoberta. Na tal biblioteca onde Raízes do Brasil está na estante de botânica, O Idiota surge na de psicologia, A Interpretação dos Sonhos, na de esoterismo; Sobrados e Mucambos está catalogado como engenharia e Montanha Mágica, como astrologia. Já Memórias Póstumas de Brás Cubas entra como kardecismo; Lolita, na lista de livros para moças; A Guerra das Salamandras, em história militar; Cem Anos de Solidão, na prateleira de geriatria; O Cru e o Cozido, na de culinária, e Hamlet, na de receitas inglesas. Já Madame Bovary surge na de pornografia; Os Maias, na de etnologia centro-americana; As Neves do Kilimanjaro, no setor de clima e ecologia; as Viagens de Gulliver, no de turismo; O Poder e a Glória, no de política; e, por fim e para encurtar uma infindável história, Carnavais, Malandros e Heróis, inclassificável por não ser lido, é listado tanto nas obras devotadas às escolas de samba, quanto está na prateleira de fraudes e contravenções.
Tentei interpelar a diretora, mas desisti. Ela é "blindada"!

[http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,livros-leitores-e-antileitores-,796454,0.htm]