"Vem, Noite antiqüíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito. (...) "
[Álvaro de Campos (F. Pessoa), Fragmento de Ode I, in: "Fernando Pessoa: poesia", por Adolfo Casais Monteiro, 10ª ed., Rio de Janeiro, Agir, 1989, p. 76 (col. Nossos Clássicos)]

"(...) noites como esta, em que já não me será dado viver."
[Jostein Gaarder, "A garota das laranjas", Trad. Luiz Antônio de Araújo, São Paulo, Companhia das Letras, 2005, p. 127 (citação possivelmente de outrem, constante também em alguma página anterior, provavelmente)]
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pentimentos (Contardo Calligaris)

 Pentimentos (Contardo Calligaris)


“PENTIMENTO” É a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.
(...)

1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.
(...)

2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha “certa”. Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? (...)

3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros - até porque, às vezes, eles são falsos 

(...). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. (...)

Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las - e de vivê-las como pentimentos.

Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.
(...)


[Pentimentos, Contardo Calligaris, Folha de São Paulo, edição de 08/dez/2011, caderno “Ilustrada”, p. E18.]

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Desejos

Em singela homenagem a tudo aquilo que não foi dito e/ou comunicado oportunamente, desejo:

1) Força, a todos aqueles que ainda precisam lutar;
2) Consolação, a todos aqueles que perderam;
3) E mais Força ainda aos que perderam e apesar disso recomeçam.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Novos desejos (C. Calligaris)

(...)

Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar é uma atividade inventiva a jato contínuo.

Por conseqüência, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos.

(...) [dá-se exemplo hipotético de negligência (silêncio, repressão, menosprezo - “deixe para lá, é besteira”) com o novo desejo]

Porque razão nosso indivíduo negligenciaria seus novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.

(...)

Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.

[Contardo Calligaris, Considerações sobre novos desejos, Folha de São Paulo, 19/mai/2011, Caderno “Ilustrada”, p. E12.]

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Sobre o ponto 1 da “moral da fábula”: lembra-me o L.F. Pondé, também na FSP-Ilustrada “não há solução para a vida”.